TEXTOS
QUAL É A IDÉIA?
por IVAN DE ALMEIDA
Perguntaram-me isso quando mostrei algumas fotos muito simples em um fórum de fotografia na rede. Quem perguntou foi um amigo virtual de algum tempo, e sua pergunta, eu sei, foi parte de um diálogo nosso já antigo, e foi, digamos, uma bola levantada para uma conversa. Mas ainda assim, no primeiro momento a pergunta me surpreendeu... Idéia? Como assim idéia?
A pergunta pareceu-me estrangeira. Eram fotos de paisagens lá na serra, fotos feitas andando pelas estradinhas de lá, aquelas estradinhas pequenas entre a mata, os pastos e as roças. As fotos eram tão somente fotos disso, e somente pretendiam mostrar isso. Não havia idéia alguma nelas, não obstante não serem snapshots ou fotos ingênuas, ou pelo menos eu não as pretendi fazer assim. Eram compostas com cuidado, tinham uma abordagem estética definida, eram fotometradas com carinho etc. Mas não tinham UMA idéia.
Uma foto precisa de uma idéia? Bem, lá no fundo de tudo há sempre uma idéia, uma maneira de ver, um conjunto de conceitos que de tão assentados parecem naturais, mas não é disso que estou falando aqui. Uma foto precisa de uma idéia explícita? Uma foto precisa de uma idéia diferente?
No texto anterior a esse falo de raspão sobre o assunto das fotografias não ser redutível aos elementos que nela estão figurados. Não ser uma mera soma desses elementos, mas também e talvez principalmente, certas relações entre esses elementos. Se descrevermos uma foto em palavras, podemos descrever tudo e não tocarmos no seu assunto verdadeiro. Ali há uma árvore. Ali há um gramado. Ali há uma pessoa deitada. Ou como na famosa foto do Bresson: ali está deitado um casal na grama e ao fundo há um lago e uma construção à beira d'água. E daí? É isso a foto? O que mais há nessa foto, na pose do casal fotografado -podemos ou não saber que são dois atores de Hollywood-, a nos dar uma sensação de estarmos vendo algo que seria banal não fosse ser extraordinário. Não parece haver nada de mais na foto, e há. O que há na foto não é decomponível na soma dos elementos, é uma relação muito fina entre eles. Outro fotógrafo, outro casal na grama, outro lago e não seríamos tomados pelo espanto e encanto provocado por essa foto. O que a foto relata? Ela diz algo sobre a personalidade deles, sobre a maneira de viver, sobre o papel que encarnam na mídia, e, principalmente diz algo a respeito da visão do fotógrafo desse conjunto, visão que põe em relevo aspectos muito sutis da vida do casal, tão sutis que nem conseguimos descrever em palavras. Mas, seja como for, não há na tal foto uma idéia clara, e sim uma indução sutil e procedente de cada parte da cena e de seu arranjo.
É e não é uma idéia, pois evidentemente o fotógrafo tinha uma idéia (opinião) sobre a vida dos retratados, mas não uma idéia no sentido da foto ser essa idéia. A foto não pode ser resumida à idéia.
Assim, quando vemos pinturas naturalistas paisagem campestre, por exemplo, digamos que do Baptista da Costa, o que há lá? É uma pintura, um retrato de um modo de vida, mas não é uma idéia. Não cabe perguntar ao pintor (se fosse possível perguntar) "Qual a idéia?". Basta-nos ver a pintura e seus valores formais, descritivos, sentirmos o cálido do sol no campo. Ninguém cobra uma idéia da pintura.
E, se é assim, por que cobrar uma idéia da fotografia? Por que a fotografia, como arte visual, não pode ser tão somente aquilo que ela é, uma descrição da vida, uma espécie de crônica da vida humana ou dos ambientes? De onde vem essa demanda por idéias?
Parece haver duas origens para essa sofreguidão. Uma nobre, outra popular, mas ambas da mesma família. Uma das origens é a arte como foi inaugurada pelo Marcel Duchamps e antecipada pelo Dadaísmo e pelo Surrealismo. Enquanto um Monet pintava seu jardim e não acrescentava nenhum signo quase verbal ao que pintava, apenas retratava em cores, a pintura surrealista utiliza símbolos quase verbais. O tempo é um relógio, o infinito é um horizonte, o espaço é uma grade cartesiana, etc na pintura do Salvador Dali. O tempo não é o tempo, nem o espaço espaço, duas coisas cuja natureza é completamente misteriosa. O tempo é aquilo que o relógio cria, o espaço a grade matemática que o descreve. O jardim do Monet é tão somente um jardim e tudo o que ele quis foi mostrá-lo na beleza percebida. A pintura do Dali é um livro, é codificada em signos, é lida literalmente. Isto é isto, aquilo é aquilo, isto mais aquilo significam tal coisa (ou dessignificam, por ser Surrealismo). E no caso do Duchamp, a idéia codificada assume o papel de verdadeira matéria da arte. Um mictório é uma fonte. Um jogo de palavras com sinônimos e antônimos emaranhados, mas tudo o que é A Fonte é uma idéia, nada mais que uma idéia. O objeto –o mictório- é banal. Iguais a ele foram feitos milhares e estão espalhados pelos banheiros públicos do mundo. Mas apenas aquele é A Fonte, e tudo o que ele é: é um mictório ressignificado por uma palavra. Depois de Duchamp, com a Arte Conceitual, as Instalações e assemelhados, a idéia tornou-se a matéria prima. Basta a idéia pura.
Mas as idéias não são assim tão abundantes. E não têm a espessura do artesanato, esgotam-se na primeira compreensão. Infelizmente as artes plasticas, ao cumprirem o ideal do Hegel em sua Estética, ou seja, ao transformarem-se em pura idéia, tornaram-se secas e repetitivas. A piada do Duchamp é boa, mas contada mil vezes torna-se enjoativa e nauseante. Poucos sabem recontá-la com graça.
A segunda origem do amor às idéias -a popular- é a publicidade. A publicidade exige idéias. O que é uma idéia publicitária? Uma idéia publicitária é um conjunto de signos muito alinhados, com pouca ambigüidade, com literalidade de interpretação. Ela tem de comunicar algo específico, não deve ser ambígua, ou se for, a ambigüidade deve também ser no máximo dual para jogar uma única mensagem ao observador.
Como na pintura surrealista, a imagem publicitária é recheada de citações literais. Ela oferece idéias sempre, contudo as idéias oferecidas não têm caráter verdadeiro de novidade mas tão somente de pequenos sustos ou surpresas emolduradas. A surpresa publicitária não pode remeter o observador para fora do mundo dos desejos socialmente impartidos, não pode atuar como arte, raptando a atenção do observador para fora do mundo cotidiano. Ela precisa oferecer idéias e sonhos já sonhados, precisa oferecer surpresas confirmadoras, por paradoxal que seja essa expressão. Ela precisa surpreender e ao mesmo tempo trazer o observador para o mundo cotidiano, prendê-lo a ele.
Mas a fotografia mesma, ao escravizar-se à idéia, deixa de ser fotografia em sua plenitude –isto é, uma arte visual autônoma, no dizer do Flavio Damm- e passa a servir a uma outra coisa, a uma comunicação de outra ordem cuja natureza é aparentada com a publicidade. Alguém fotografa (e várias fotos assim já vi na rede) óculos sobre um livro e a luz que passa pelos óculos e a sombra produzida pelo seu aro produzem sobre o livro um desenho em forma de coração. Isto é fotografia? Bem, é feito com fotografia, mas é uma idéia que pode ser literalmente traduzida em palavras, que pode ser delimitada com precisão. Isto-siginfica-isto-que-significa-aquilo. A fotografia aí é apenas um meio. Poderia ser pintado, poderia ser renderizado em 3D com programas gráficos e a idéia, que afinal é a fonte de interesse do quadro, permaneceria.
Mas a fotografia do casal, essa não é assim. Não podemos tirar dela nenhuma idéia, não podemos tirar nada dela que não seja fotografia. E o que for tirado desequilibra o conjunto. Não podemos pintar a cena, não podemos produzir a cena em gesso, nada disso. Tudo o que há é fotografia. Obviamente há uma elaboração, mas não uma idéia.
O mito da idéia denota uma cultura que viciou-se em novidades, que confunde arte com produção de novidades, que substituiu a arte por um entretenimento artístico que precisa, como em um programa de televisão, de uma notícia atrás da outra. As novidades, contudo, não são geradas pela mecânica confirmatória de uma cultura, mas por suas mudanças. Na falta das mudanças, a produção histérica de falsas novidades, de idéias que nada mais são que citações de esquemas verbais repetidos daquela cultura, assume o lugar e tolda a visão do que é na verdade a fotografia; simples e inesgotável depoimento da vida.