TEXTOS
FOTOGRAFIA AUTORAL
por IVAN DE ALMEIDA
Fotografia Autoral.
Ortografia, Gramática, Estilística, e o que mais?
Por certo não podemos esperar de alguém formado em Letras que escreva um poema, um romance ou mesmo uma crônica, apesar desta pessoa dispor de todo o conhecimento da língua necessário para fazê-lo. Evidentemente, saberá produzir um texto em qualquer dos modos acima, mas à poesia não basta a forma ou as rimas, ao romance não basta o enredo, à crônica não basta a meditação sobre um fato.
Quando lemos textos diversos é fácil reparar alguns serem aliciantes, conduzirem nosso pensamento com vivo interesse, envolverem-nos. Noutros, sua leitura é quase um trabalho, e outros ainda nos oferecem algum entretenimento mas nenhuma emoção mais profunda, nenhum deslocamento maior da nossa consciência, nenhuma nova compreensão ou acrescentamento.
Há como ensinar a alguém ortografia e gramática e até estilística e mil modos de construir um texto. Mas tudo aprendido, será como uma estátua a que falta um sopro de vida para sair, andar, viver como homem.
Essa situação tem paralelismo com a fotografia. Alguém quer aprender a fotografar. Vai a uma escola de fotografia e é ensinada uma ortografia –como regular uma câmera-, uma gramática – rudimentos de composição- e uma estilística – variações sobre o olhar fotográfico. Após alguns anos e muita luta, o praticante torna-se capaz de dominar o aparelho e consegue produzir fotografias coerentes com o fazer fotográfico em sua forma mais assentada. É capaz de fotografar uma árvore em silhueta, é capaz de lidar com o enquadramento peculiar exigido por uma ultra-grande angular, é capaz de desfocar o fundo em um retrato ou de fotografar em contraluz. Domina então a técnica latu sensu isto é, toda a ortografia, a gramática e a estilística. É capaz de fazer um tipo de fotografia que veja em uma revista ou entender como foi feito.
Nessa altura, o praticante está como o recém-formado em letras. Todas as ferramentas estão dominadas, mas... o que fazer com elas?
É forçoso reconhecer que tanto nas letras quanto na fotografia o problema não acaba ao serem dominadas as ferramentas. Talvez fosse melhor dizer que o problema começa nesse ponto. Ao chegar nesse ponto o praticante pode dar-se por satisfeito com o domínio alcançado. Passará a vida fazendo fotos boas tecnicamente, corretas em fotometria, foco, fotos que serão nítidas onde necessário for e muitas vezes fotos vistosas. Mas sua produção não constituirá uma narrativa pessoal mas tão somente uma contribuição à narrativa coletiva na qual certos padrões de fotografia são estabelecidos e reproduzidos.
Neste texto nossa indagação é: O que existe além disso? O que existe para além desse patamar é coisa da esfera do dom ou pode ser aprendida? E se puder ser aprendida, como perseguir esse aprendizado?
Desde logo devo confessar não ter respostas prontas para essas questões. Tenho, quando muito, algumas linhas de pensamento.
O que é narrado na fotografia? O que cabe no retângulo fotográfico que não é o objeto retratado e não é a técnica de retratá-lo? Poderíamos mudar a pergunta e refazê-la usando a palavra "poesia" em lugar de fotografia. Ficaria mais ou menos assim: O que é falado na poesia que não se resume às palavras ou às rimas? Se conseguirmos uma resposta teríamos algo para seguir.
Em um sentido muito geral mas não pouco verdadeiro, podemos dizer que ambas as práticas tornam-se poéticas quando modificam a forma como o observador está presente. Quando elas modificam sua maneira de ver o mundo, quando de alguma maneira, seja por serem agradáveis ou incômodas, terminam capturando a atenção do observador e o colocando em um estado psíquico diferente no qual sua percepção do mundo é modificada por algo colocado pelo criador na obra. Nessa modificação o observador vê ou percebe alguma coisa, algum conteúdo ou sensação não incluído em sua experiência costumeira. Digamos que através da obra, da fotografia ou do poema, o observador consegue partilhar de uma maneira de ver o mundo muito própria do criador da obra. Não é uma maneira exclusiva, pois em uma humanidade tão vasta e sendo os assuntos humanos tão próximos é impossível falar de exclusividade, mas é uma maneira diferenciada em relação ao costume mais comumente partilhado.
Essa quase-exclusividade é tão somente um aprofundamento do criador em uma área qualquer da vida, uma atenção maior a alguma coisa. Prestando mais atenção a algo, o criador vai se embrenhando em percepções pouco exploradas, vai indo a "lugares" do entendimento menos freqüentados. Vai adquirindo uma vivência modificada em alguma área. É desse lugar diferenciado que o fotógrafo trará um depoimento que tem para o observador o papel de um mapa para esse visitar através da foto "lugares psicológicos" fora de sua sensibilidade normal, receber material inacessível em sua vida cotidiana ou através da fotografia repetidora dos conteúdos recitativos da comunicação vulgar.
É preciso aqui assumir haver duas esferas distintas. Uma delas partilhada por todos nós, de conteúdos repetidos no discurso cotidiano pelos meios de comunicação –conteúdo esse referente a uma determinada abordagem dos assuntos, a uma determinada e consagrada estética, etc, e uma outra esfera relativa a conteúdos de observação menos comum relacionados a formas específicas de perceber.
O interessante é serem os objetos contidos nas fotos do mesmo tipo, mudando a maneira de narrá-los. Um fotógrafo de natureza após muitos anos fotografa um determinado animal, e outro fotógrafo sem essa vivência também o fotografa. O primeiro tentará mostrar na foto coisas de seu saber sobre aquele animal, coisas de seu saber sutil, como um esgar de ferocidade, uma posição do corpo, etc. Embora o animal e o contexto possam ser os mesmos, a coisa mostrada não é a mesma. Na maneira do primeiro fotógrafo mostrar há algo que somente sua atenção continuada e comparativa dá relevo.
Assim também acontece na fotografia de pessoas. O fotógrafo agrega à fotografia certa visão do ser humano, certa abordagem da humanidade, sem o que a fotografia das mesmas pessoas ficaria resumida a uma visão esquematizada de seus papéis sociais.
Igualmente no plano da estética. Uma pesquisa estética longa e na qual o fotógrafo se coloca problemas formais cada vez mais sofisticados o faz dominar jogos formais incomuns. Trazidos à fotografia, aliciam ou deixam perplexo o observador.
Assim, em resposta à questão inicial deste texto, a dita Fotografia Autoral começa exatamente na vida mesma do autor, do fotógrafo , e será tão mais autoral quanto mais o fotógrafo mergulhar no seu assunto, naquilo que o toca especialmente em oposição à atitude de fotografar "como". A fotografia autoral sempre se distinguirá da fotografia comum pois ela já não é movida pela fotografia somente, ela já não tem questões puramente fotográficas, mas sim questões onde a fotografia é posta a serviço de algo além dela, algo da ordem das buscas pessoais.
Assim, a Fotografia Autoral não é mais fotografia, embora faça-se como fotografia. Ela é investigação da vida, é depoimento sobre ela, e segundo sua profundidade, será significativa.
Isto pode ser aprendido ou desenvolvido? Bem, como em todo aprendizado há um requisito a ser atendido: O praticante deve desejar o aprendizado. Este requisito parecendo óbvio não o é de fato, sendo ao contrário um ponto de conflito e devido a esse conflito não são muitos os que empreendem essa busca. Por que é assim?
A razão principal é tal busca começar a partir de um reconhecimento pelo praticante de uma situação de insuficiência e desta insuficiência não ser mais técnica –a técnica é coisa externa e sendo externa é entendida como um mero conhecimento operatório a ser obtido independentemente do que se É, do que é a personalidade do fotógrafo. Nesse ponto o autor deve reconhecer haver insuficiência em sua visão de mundo –todos temos isso- deve reconhecer ser ela a coisa a educar. Nesse ponto a fotografia torna-se uma espécie de prática educativa na qual o fotógrafo pode observar a evolução de sua visão do mundo, e a qualidade essa visão de mundo será em última instância a responsável por sua poética fotográfica.