TEXTOS
PERCEPÇÃO E COMPOSIÇÃO
por Ivan Junqueira
O problema básico da composição plástica consiste no relacionamento harmonioso entre a parte e o todo.
Enunciada essa sentença aparentemente simples, imediatamente começamos a desdobrá-la. O que é "harmônico"? Bem, no dicionário encontraremos definições que remetem à estética, e que são de certa maneira circulares, pois ao fim e ao cabo, harmônico é o que fica bonito, o que tem justeza de proporção. Pare entendermos a sentença, pelo menos para a entendermos como a enunciei, devemos ter em mente o significado original da palavra harmos em sua língua original, o grego.
Harmos significa ENCAIXE ou JUNÇÃO, JUNTA. Harmos significa tal relação entre duas ou mais que essas em ação mútua produzam um efeito determinado, ou melhor, funcionem. Há na palavra algo relativo à preocupação grega com a justa medida, com a medida certa, nem demais, nem de menos, o que se chamava “metrética”. Essa preocupação encontrava-se inscrita no Oráculo de Apolo, em Delfos na frase "Odeia Hybris", hybris sendo o exagero, a arrogância da desmesura.
Mas a palavra não se referia somente à estética, embora fosse aplicável à estética dentro da forma com que essa era buscada, a saber, pelo rigor do proporcionamento.. A idéia de funcionamento por acoplamento (encaixe), ou de coisas ajustadas para funcionarem juntas pode ser rastreada nas palavras modernas que contém o núcleo semântico de harmos, quais sejam: armadilha, armação, armário, arm (braço em inglês), arma, etc. Em todas essas palavras se está falando de uma montagem de partes para uma finalidade.
Então, harmonia plástica seria uma montagem de partes em uma relação inteligível, ou, por enquanto, perceptivelmente agradável. Este problema não é um problema fotográfico, mas é comum a todas as artes plásticas e à arquitetura, e na fotografia significa relacionar as partes desta fotografia com o retângulo fotográfico. O retângulo fotográfico é o todo (fotografia) que subordina seus componentes, desarte os componentes são harmônicos ou não em relação a esse todo.
É preciso entender que as formas são sempre conceitos. Um retângulo não é uma imanência da razão, não é uma forma natural. É um conceito que ganha determinação em exemplos concretos mais ou menos perfeitamente retangulares, e que são reconhecidos como retângulos devido ao fato de cumprirem esse conceito naquilo que corresponde a um tipo de ação perceptiva.
Entendendo um retângulo (o papel fotográfico) como um conceito, veremos que há nele habitando outros conceitos, esses logo deriváreis do primeiro. Vejamos. Há no retângulo, independentemente de desenharmos, duas diagonais. Há também, independentemente de desenharmos, um centro. Independentemente como? Independentemente porque esses conceitos de centro e de diagonais são quase ou mais pregnantes que o conceito do retângulo, de modo que a contemplação do retângulo os evoca -poderia dizer mais, o retângulo mesmo é reconhecido como tal parcialmente por eles, se isso não nos lançasse em uma recursividade infinita.
Assim, antes mesmo de colocarmos qualquer coisa no retângulo ele está povoado. Já falamos das diagonais, já falamos do centro, poderíamos avançar diretamente para as linhas vertical e horizontal que definem o centro, tudo isso já se nos oferece à contemplação apenas com ele em branco. Todas essas entidades são harmônicas no sentido de serem estruturalmente ligadas ao retângulo a ponto dele não poder existir sem elas.
No caso do retângulo do filme 35mm, uma outra entidade harmônica pode povoá-lo: o quadrado formado pelo lado menor (aliás, pode povoar qualquer retângulo). Esse quadrado nós o veremos ou não veremos de acordo com a posição estar marcada ou não. Se colocarmos um poste na foto coincidindo com essa linha, nós o veremos, ainda que não seja declarado conscientemente que o vemos. Ele estará... no terço. Esta é uma das rações pelas quais o terço no filme 35mm é tão importante e pregnante.
Se examinarmos o dito até agora procurando do exemplo formular uma regra geral, a regra geral seria que é harmônico no retângulo o ponto ou posição que a mente ao escrutinar o quadro consiga fazer corresponder a uma estrutura perceptiva pregnante. A idéia de pregnância foi muito usada pela Gestalt, uma escola alemã de teoria da percepção, ou psicologia da percepção. Contudo a Gestalt supunha serem tais formas pregnantes imanências da razão, isto é, adotava a idéia de uma razão inata, a qual seria de natureza logico-matemática, e elevava a geometria euclidiana ao status de razão formal imanente.
Porém, a bem da simplicidade e pela inutilidade de se supor imanências, verificamos que essa razão formal euclidiana pode ser adquirida pela experiência cultural que nos cerca desde o nascimento. Nosso olhar reconhece os objetos quando eles permitem que sobre eles seja realizada uma rotina escrutinadora específica. Diz o Jean Piaget: "o que reconhecemos não é a coisa, e sim nossa reação à coisa" (Construção do real na Criança). Assim, se a rotina de escrutínio (reação) for semelhante a outras rotinas de escrutínio pertinentes para um retângulo, a coisa é um retângulo. Mas este é um ponto doutrinário mais extenso, e não dá para discuti-lo aqui. O importante é que se usarmos um eye-tracker para seguir os movimentos da pupila ao contemplar um retângulo ou uma construção retangular veremos uma série de movimentos horizontais e diagonais repetitivos, e isso é a consumação procedural do reconhecimento. Dizendo de forma simples: se me u olho segue uma linha sem ângulos e volta ao início, então "aquilo" é algo ovóide ou circular.
Pois bem, esses inúmeros treinamentos não são utilizados por nós por volição. Se assim fosse, o reconhecimento do mundo seria tão vagaroso que nada funcionaria. Então, e aí o interessante, a tentativa de reconhecimento é disparada pela própria forma. Basta a forma colocar-se na nossa frente que tentamos dar significado a ela, e buscamos fazê-lo empregando as rotinas pertinentes, nem sempre com sucesso, pois nas chamadas ilusões de ótica a mente fica intercambiando entre duas interpretações derivadas de duas rotinas de ajuste diferentes sem conseguir decidir-se sobre o significado do visto. É preciso entender que a percepção é um processo através do qual o organismo busca dar significado aos eventos do mundo para poder balizar suas ações. Toda percepção é significada, explícita ou implicitamente.
Mas, havendo os treinamentos podemos conhecê-los, e assim compor nossas fotos sem ingenuidade utilizando-os propositalmente, isto é, colocando os objetos no retângulo fotográfico em lugares e posições que evoquem e permitam o escrutínio dessas formas implicitamente. Daí essas proporções auferem seu poder.
Poderíamos dissecar várias configurações em busca da lógica de escrutínio que as governa. Já fizemos isso no terço do filme 35mm acima, mas pode ser feito com a Proporção Áurea, com a diagonal do quadrado, com os traçados reguladores (teia de proporções internas da figura), etc. Em todas elas se pode mapear a estrutura harmônica, no sentido dos encaixes específicos que dão sentido à estrutura.
Conjugar isso é compor conscientemente. Na história da arte, toda a grande produção foi governada por esses encaixes. Nunca houve lugar para ingenuidade nem nunca se tentou inventar a estética a cada obra. A idéia da arte espontânea é típica do Século XX e de nenhum outro, conquanto grande parte das emergências artísticas continue conscientemente sendo aplicações disso. Não é o iniciante quem precisa disso, absolutamente. É mestre nisso aquele que adquire a maestria de usar tais estruturas. Não por acaso as fotos do Bressom são recheadas disso.
Junqueira, Ivan de Almeida, MSc
http://ivandealmeida.multiply.com/
agosto de 2005