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O OLHAR FOTOGRÁFICO

Isabel Gouveia



O olhar sempre deseja mais do que lhe é dado ver.


O que é ver? O que é visível?


Recentemente li resultados de uma pesquisa sobre populações de um determinado arquipélago do Oceano Pacífico que não identificam e nem denominam várias cores por nós conhecidas. Para eles, o verde e o azul assim como o laranja e o vermelho, são a mesma cor. Por que? Após várias suposições e pesquisas, inclusive na área da oftalmologia, descobriu-se que aquelas pessoas só viam as cores que estavam nominadas em sua sintética linguagem, só viam aquilo que o conceito mental havia formulado através da linguagem.


Portanto olhar e linguagem são indissociáveis. O homem tende a perceber o mundo pela articulação entre sua estrutura mental e sua intuição, permeadas pela linguagem. Então, só vemos aquilo que nomeamos? Existe uma vinculação direta entre o ato de ver e o ato do conhecimento. O olhar fotográfico surge como mais um elemento deste universo.


O desejo de registrar e representar a realidade está presente em toda a história da nossa cultura. Pela arte, especialmente através do desenho, da pintura e da escultura, o homem buscou esta apropriação. Com o nascimento da fotografia estas linguagens foram libertas desta tarefa e puderam livremente caminhar pela abstração, pelo experimental e pelo conceitual.


Coube e ainda cabe à fotografia, por sua própria natureza técnica, o papel de apreender através da captação das luzes, a apreensão da própria imagem da "realidade". A fotografia fornece provas. Coisas que ouvimos falar, mas que suscitam dúvidas, parece-nos comprovadas quando delas vemos uma fotografia. A fotografia parece se relacionar de maneira mais simples e direta e portanto mais exata com a realidade visível do que outras linguagens miméticas. Tem sido e ainda é, sua mais importante função em nossa sociedade.


Susan Sontag polemiza o papel e a natureza da fotografia relatando uma experiência que denominou de epifania negativa, quando com 12 anos de idade folheou numa livraria, algumas fotos sobre o campo de concentração de Dachau. Diz ela jamais ter visto algo, seja em fotografia ou na vida real, que a atingisse de modo tão incisivo, profundo e instantâneo. Ela afirma ser possível dividir sua vida em duas partes: antes e depois de ver aquelas fotografias, embora somente vários anos depois tenha entendido plenamente seu significado.


"Quando fitei aquelas fotografias, algo se rompeu. Acercava-me a um limite que não era apenas o do horror; sentia-me irrevogavelmente magoada, ferida, mas uma parte de meus sentimentos começou a enrijecer-se; algo morreu; algo ainda chora...... Uma vez que tenhamos visto essas imagens, começamos a percorrer um caminho que conduz a uma visão cada vez mais ampla. A imagem perfura, mas a imagem também pode anestesiar quando nos expomos demasiadamente a elas". A imagem fotográfica é onipresente e causa um efeito imenso em nossa compreensão do mundo e na formação de nossa sensibilidade ou insensibilidade ética. A fotografia sobrepõe ao já congestionado mundo real uma duplicação de imagens que formam um simulacro, que nos faz crer ser este mundo mais acessível do que na verdade o é. Ela tornou-se uma espécie de mediadora desta complexa relação entre o homem e sua realidade. Neste contexto cabe citar "Êxodos", o mais recente trabalho de Sebastião Salgado publicado e exposto em vários países do mundo com grande repercussão e impacto. Na apresentação, o escritor José Saramago compara a obra ao "Inferno de Dante", pois disseca de forma contundente a tragédia mundial das populações desalojadas por guerras, fome, miséria e êxodo rural. Ver a exposição é um mergulho na tragédia humana, é quase insuportável. Sensações de choro, tremores, contrações abdominais e sentimentos de profunda indignação e o desejo desesperado e urgente de mudança nos dominam. Poucas pessoas conseguirão passar indiferentes por esta experiência.


A polêmica que tem cercado este trabalho, inclusive com algumas acusações de que o autor estaria estetizando e tirando proveito da miséria para sua promoção e enriquecimento, nos remete claramente à reflexão do papel da fotografia e do olhar fotográfico sobre o mundo atual. Recorro aqui novamente à inteligente percepção de Susan Sontag: "Para os fotógrafos, não há, finalmente, diferença alguma entre o esforço de embelezar o mundo e o contra-esforço de arrancar-lhe a máscara. A câmara pode ser indulgente; mas também ser muito cruel. Sua crueldade, porém, acarreta tão somente outro tipo de beleza". De alguma forma, este paradoxo não difere muito daquele vivido pelo homem frente ao sentimento da dor e ao do prazer.


Novos desafios e propostas estão permeando a linguagem e o olhar. Cada vez mais vemos fotógrafos trabalhando com experimentações abstratas ou não. Com o desenvolvimento da fotografia digital, cada vez mais se estabelece a fusão radical entre várias linguagens, o que abala profundamente sua reputação de documento, de comprovação da verdade.


 
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