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LINDO CENÁRIO PARA UMA FOTO

Ignácio de Loyola Brandão (Estadão de 21 de março de 2003)




Vínhamos pela rua, no passo acelerado de quem faz um exercício físico e julga que, em dois dias, estará em ótima forma. Manhã ainda e suávamos.

Bulga, nosso professor, minha mulher e eu caminhávamos concentrados, tanto quanto era possível, naquele dia abafado. Distraíamos, comentando como o Galvão Bueno assinalava com paixão qualquer lance do São Paulo, mostrando-se discreto aos do Corinthians. E como o Arnaldo Cesar Coelho jamais falou mal de algum juiz. Quase não vimos a mulher com a criança nos braços, um menino de poucos meses. Atravancando a calçada com o carrinho do bebê.

- Por favor, minha gente, disse ela. Me ajudem!

O bebê estaria passando mal? Ela estava indisposta? Queria um auxílio? A cada passo na cidade nos interrompem pedindo dinheiro para as mais diversas causas e nenhuma delas sabemos se verdadeira. Não íamos parar, no comportamento corrente, na atitude normal que domina todos nós, naquele gesto de defesa e repulsa que precisamos fazer a cada instante, tanto nos pedem, nos abordam. Parar para recusar? Então, fazemos de conta que não vimos, não ouvimos, e a pessoa fica ali, esperando o próximo a ser abordado.

Porém, a mulher insistiu.

- Por favor, me ajudem, é um minuto só!

O tom era súplice-imperativo, se é que tal categoria existe. Bem, cedo ainda, não tínhamos iniciado a nossa romaria rotineira de pedidos e recusas, de abordagens e rejeições, parte do cotidiano do paulistano.

- Podem tirar uma fotografia minha com a criança?

- Uma foto?

- Sim, uma foto!

- Onde?

- Aqui.

- Aqui mesmo?

- Não é uma delícia este lugar?

- A senhora acha?

- Vinha andando com o menino e de repente parei. Vai ser aqui, pensei. Tão lindo. Quero mandar para meu marido ver como São Paulo é bonita e o bebê está crescido.

- Onde ele está? O marido, claro!

- Na Paraíba. Trabalhando. Vim para a casa de meu irmão, aqui, para ter a criança com mais assistência.

- E a câmara?

- Ah...

- A máquina fotográfica?

- Está aqui. Segurem a criança, por favor.

Minha mulher segurou, o bebê sorriu, nem estranhou. A jovem mãe sacou da bolsa uma câmara simples, prática, automática. Não se precisa saber mais nada para tirar fotos, é só olhar pelo visor e apertar o botão, depois revelar no expresso de uma hora e receber aquelas cópias que, com os meses, perdem as cores. Claro que se cortam cabeça aos milhares. Foi-se o tempo em que a fotografia era revelada, copiada e fixada, para durar. Todos nós temos fotos de nossos avós, bisavós e mesmo tataravós. Amarelaram um pouco, mas pode-se ver as fisionomias com nitidez. A mulher retomou a criança e se encostou na parede, junto a um tufo de arbustos. Segurou o bebê com carinho.

"Tomara que ele sorria." Fez cócegas, a criança gargalhou, Bulga bateu a foto, mandou que ela esperasse, bateu uma segunda, por segurança.

- Por favor, não vá me gastar muito filme, estou economizando o que posso!

- Bati outra para garantir, às vezes, uma sai ruim, a outra boa.

- Não vai ficar incrível? Não acham também este cantinho bonito demais? Meu marido vai adorar e eu queria que ele visse como São Paulo é maravilhosa.

Concordamos, nos entreolhamos. Duas vezes por semana passamos diante deste lugar, um antigo escritório de advocacia vazio, com uma placa de aluga-se. A casa parece caveira de burro, já se instalaram ali três empresas e logo se foram. Agora, todos os dias, vejo um homem alto, de cabelos brancos, de pé à porta, aguardando o interesse dos locadores. Imagine o tédio desse trabalho.

Horas e horas à espera, informações repetidas, distribuição de cartões. Até há pouco, nunca tínhamos pensado que o lugar pudesse ser bonito, não há nele nada de excepcional, diferente, atraente. Apenas dois arbustos que crescem desordenados, sem cuidados, regados apenas pelas chuvas.

É bonito este cantinho da cidade? Uma parede, uma janela a meia altura com vidros espelhados (certamente para que os passantes não fiquem olhando para dentro). Os vidros refletiam as plantas, de maneira que a profundidade da paisagem aumentava. Bulga pediu à mulher que virasse de frente para as janelas, explicou que a imagem dela ficaria refletida, o marido ia vê-la duas vezes. A foto vai mostrar a mãe e a criança na calçada como se estivessem dentro de um jardim. A mulher percebeu logo a situação.

- Nossa, como gente rica sabe das coisas!

- Não somos ricos. Trabalhamos até bem mais do que gostaríamos.

- Mas são gente boa! Pedi para cinco pessoas e só vocês pararam para me ajudar.

Não adiantava querer explicar que o receio, muitas vezes, empurra as pessoas para a frente e as impede de parar, conversar, estender a mão. Lembrei-me de uma cena de Esperando Godot (pronto, chegou o intelectual) em que Vladimir, o personagem principal, diz, quando Estragon lhe pergunta se devem roubar ou ajudar um homem que tinha caído: "Vamos fazer algo enquanto temos oportunidade. Não é todo dia que somos necessários." Assim, batemos a foto e seguimos, pensando que os cinco que recusaram ajuda tinham perdido uma chance de olhar um pedaço de São Paulo maravilhoso para alguém.

Ainda que, passando em frente dele, todos os dias, jamais tivéssemos reparado. Porque a beleza é de uma relatividade enorme, a vida é mais simples e objetiva para muita gente e, sendo desse modo, pode ser melhor desfrutada. Será que olhamos direito para as coisas, para a paisagem à nossa volta? Para as pessoas? Aquela mãe tem no olhar uma profundidade invejável, porque ela não complica, olha e percebe, recebe o que lhe é dado como dádiva e, ainda por cima, reparte com os outros, divide com o marido distante na Paraíba.


 
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