TEXTOS
A beleza por trás da forma
Martinho Carlos Rost
Certa vez, perguntaram a um grande escultor que segredo se escondia por trás da sublimidade de suas obras. Sem desviar a atenção de seu trabalho, o artista respondeu: "Eu só tiro o que está sobrando". A arte é feita justamente por essa sua capacidade de descobrir (ou de retirar o que cobre) o belo; ou, ainda, de libertar a beleza daquilo que a mantém prisioneira. A arte não cria, não faz a beleza surgir do nada - a arte copia as idéias; mostra o que já existe, mas não estava sendo visto. A arte manifesta um sentido de perfeição. Antes de técnica, a arte é feita de intuição estética. A técnica (habilidade e instrumental) não tem outra pretensão, senão a de realizar o ideal, ou a de tornar uma idéia real. O escultor desenvolve sua habilidade com o intuito de materializar os seus insights.
Os grandes homens - os mais lúcidos, podemos dizer, porque vêem o que ninguém mais vê - são guiados para suas descobertas por uma espécie de instinto seguro, semelhante ao que guia os sonâmbulos. Antes, porém, que as transformações se manifestem, e se consolidem como mudanças de paradigmas, vem o sonho, a visão do pensador: plena, independente de sua representação. As técnicas não são mais do que os meios que utilizamos para transformar nossas visões de mundo em realidade. Assim, desenvolvemos a filosofia, para nos realizarmos no conceito de "Ser", de "Logos", ou de "Nous"; a ciência, para nos realizarmos no conceito de "Cosmos" ou de "Campo Unificado"; a teologia, para nos realizarmos no conceito de "Deus". A arte mostra a beleza através da técnica do artista; a filosofia o faz através da reflexão do filósofo. A ciência procura o belo pelas lentes da atenção e da observação; a teologia, pela análise da revelação. O ser humano quer mostrar a beleza, escancarar a beleza ao mundo - mas deveria apontar para si mesmo, e não para suas obras. Porque as obras, afinal, nada fazem senão apontar para a beleza por trás de seu criador.
O que se nos afirma como verdade, se não puder ser vivenciado como verdade, ou se não despertar a verdade em nós mesmos, permanecerá sempre mistério e vazio existencial. Vivenciar a verdade é compreender a idéia por trás da obra; é livrar a idéia de suas representações. Se a perfeição só pode ser encontrada despida das formas que costumamos lhe atribuir, o homem só pode encontrar a si mesmo quando se despir dos conceitos nos quais se envolve. Paradoxalmente, a forma que exalta o Criador, é também a forma que Lhe oculta a luz.